A expectativa de uma relação

A expectativa de uma relação[1]

(Texto de Helder Dias, Joclécio Azevedo e Susana Jaques, publicado na revista Margens e Confluências, edição da Escola Superior Artística do Porto – Extensão de Guimarães, em dezembro de 2004)

As figuras do espectáculo

Os Microfones… as testemunhas silenciosas | As cadeiras… o duplo como superfície | A cadeira… o elemento diferente | A música… a memória enclausurada | O observador… o exército da parcialidade

Vivemos numa época caracterizada por expectativas. Nas artes do corpo, nas artes numéricas ou nas que as misturam, parece existir um ponto onde tudo se interliga; o instaurar da expectativa de uma relação. Os objectos propõem-se renovados, dialogantes, uma espécie de quase-sujeitos. Os espaços cénicos despem-se e requisitam-nos para completar a sua mudez/nudez. E nós completámo-la, projectamos expectativas que se convertem em re-leituras. Ensaiamos uma construção paralela constante.

O real que nos rodeia aproxima-se dos jogos de computador mais recentes  e nele se desenvolve, com mestria, a noção de user generated reality. Evidenciam-se dificuldades em delimitar fronteiras que separem o programa da programação, a informação do ruído ou o objecto do sujeito. A dinâmica, o fluxo, a troca, o remix, o híbrido são processos aparentemente à deriva, apenas agenciados pelas figuras do espectáculo. Mais recentemente, Catherine Malabou tem problematizado a ideia de plasticidade como um sintoma conceptual da contemporaneidade.

“Les deux significations fondamentales de la plasticité – réception et donation de forme  – se trouvent alors investies de une valeur radicalement nouvelle pour désigner la capacité qu´a le sujet de se former et de se transformer, de se dessaisir de sa forme ancienne, de fabriquer du substitut (matière plastique avant l´heure), d´exploser enfin.”[2]

Resumo 1: aniquilar-se, consumir-se, perder-se no excesso, desconforto, absurdo quotidiano, qualidade de presença total.

Na ausência de uma linguagem pacificadora, que permitisse a nomeação do objecto, terá existido uma época em que devíamos ter sentido um terror absoluto perante a realidade. Foi a clivagem original entre o real e a linguagem que fundou um espaço virtual de domínio das intensidades. O enigmático, o metafórico, o especular, o incompleto passaram a ser regimes de funcionamento desta duplicação, deste jogo de reflexos entre real e linguagem.

Os efeitos da divisão especular da existência não se limitaram à criação de uma ruptura epistémica e implicaram a delimitação de um espaço que pode ser agenciado por noções como o Bem, o Divino ou o Belo, um espaço sujeito a uma estruturação de poder.

O espectáculo era então o regime das intensidades agenciadas em que funcionava a ruptura original entre o real e a linguagem que o cobre/retalha. Neste sentido, a espectacularidade adquiria uma dimensão de esquecimento do eu, uma transmigração em direcção a conceitos construtores de realidade.

Resumo 2: Dificuldade como não inibição, solos resumidos, morte próxima, divagação, deriva, testemunha silenciosa, diálogo silencioso, horrivelmente belo, intensificação das relações, sujeição ao aparelho do espectáculo, interpretação, crueldade para com o não eu, elemento comum, síntese de eventos identificáveis, existência mental, personificação e processo de realização, processos de síntese, ditadura do material.

O espectáculo não é distinto do regime que o propõe. Num funcionamento baseado na divisão especular, a espectacularidade era a camada que recobria a quebra, que separava o real da linguagem. Autores como Guy Debord ou Jean Baudrillard produziram alertas empenhados para os perigos de não reconhecermos mais a separação e de sermos submetidos a uma alienante espectacularização do real.

Ainda segundo Baudrillard a espectacularidade já não estaria no regime de agenciamento das intensidades mas na opressão semiótica generalizada e esvaziada. O espectáculo simulacral prescindia da precedência e da procedência dos referentes sob os signos, numa espécie de festim comunicacional volátil.

“A ilusão já não é possível porque o real já não é possível.”[3]

Nas artes performativas, as falhas, as dobras do cenário, os momentos de transição, sempre foram escondidos sob pena de prejudicarem a ilusão. Apenas os momentos de realidade deviam ser apresentados. O palco tentava ser uma purificação do real, como se existisse algo de metafísico neste direccionar das propostas e dos corpos. Mas, à medida que o real passou a chamar a si as características do espectáculo[4], o palco assumiu a realidade como elemento organizador. A composição em tempo real, a fisicalidade extrema ou a desconstrução do dispositivo cénico, são tudo estratégias de aproximação do palco ao real.

Resumo 3: elemento comum que passa entre todos, eliminar a introdução, fragmentação narrativa, não consequência, princípios do suporte.

            Numa primeira fase, Hegel e depois todo um conjunto alargado de outros autores, remetem-nos para a ideia de que a esquematização especulativa estaria a chegar ao seu fim. O espaço disponível para concentração e agenciamento esvaziara-se e produzira um equilíbrio/anulação de forças que impedia a sua continuação. As imagens centralizadoras, que funcionavam como atractores da acção, ou deixam de funcionar ou desaparecem.

            “Desde que enunciado o especular é abolido, por se realizar sem falha. Depois dele só haverá jogo ou nada de significativo. Mas afinal há sempre mais uma linha por escrever, que é sempre a última, ou melhor, é sempre a última antes da última, para referirmos a fórmula de Kracauer.”[5]

            A estrutura especulativa que desde muito cedo se organizara em torno de esquemas tremendamente potentes como o Platonismo ou o Cristianismo parece ceder e dar lugar a uma época de plasticidade total.

            Catherine Malabou destaca a forma como o conceito foi rapidamente exportado do território da estética para  as mais diversas àreas como a genética, a neurobiologia ou a psicanálise… A plasticidade parece preencher com mais qualidade a definição do principal esquema operatório contemporâneo, substituindo noções como a de assemblage ou de híbrido.

Este fechamento especular também assume uma forte dimensão técnica. Os modernos, que progressivamente haviam normalizado o tempo e o espaço ao aplicarem uma substituição dos modelos simbólicos por modelos matemáticos, participaram implementação generalizada da literalidade do código digital. Neste caso, o fechamento do especular seria o culminar da quebra que até agora o havia sustentado, esse momento em que uma realidade virtual, suportada por dispositivos ópticos, absorve a estrutura especular que havia impulsionado a invenção desses mesmos dispositivos. O espaço de construção do indizível esvai-se num outro tipo de espectacularidade, a única que nos resta, a da obsolescência generalizada.

Resumo 4: processos de produção de processos, postura crítica na desconstrução, lançar bases para o trabalho, alicerces, esquisso, esquema, excesso, distanciação, trabalhar para a estrutura, grau de exigência, visão versus tradução, consumo, confluência, o espectáculo é uma edição de pequenos nadas, contra  a banalidade coerciva, produção do sentido, intérprete desabitado, estratégias da revolta do corpo com orgãos, funcionário do espectáculo, funcionário da produção de sentido, produção da relação.

Retomando a noção de plasticidade, interessa-nos reflectir sobre a maneira como o conceito congrega em si dois movimentos distintos. Nos seus extremos, estão a capacidade de receber e de fixar uma forma e no lado oposto, a explosão de toda a forma. Cada forma encerra a sua possibilidade de auto-destruição.

Mais umas vez, foi Hegel o primeiro a alargar a complexidade da noção de plasticidade retirando-a do domínio estritamente estético e deslocando-a para esse lugar problemático que é o da subjectividade. Através da plasticidade, Hegel propunha um sujeito que deixava de ser um elemento passivo na recepção do meio que o rodeia. Tal como a endofísica viria a confirmar, o nosso olhar não é apenas uma expectativa de relação… é sempre uma relação, uma afectação do observado.

De acordo com a leitura que Catherine Malabou faz de Hegel, a subjectividade jamais é passiva, não pode ser encarada como sólida e fixa mas sim como uma instância plástica. Na sua receptividade em relação à forma está inscrita a sua participação nessa mesma recepção.

Resumo 5: entender o material, manipular o material, usar o material para criar outro material, lubrificar as relações, o teu segundo nome, o que é que o mecanismo produz, reportório que assimila o que vem de fora, o fantasma de grupo.

“La plasticité caractérise dès lors le lieu le plus sensible, le vif de la subjectivité, son rapport à l´avenir. Elle dit ce travail par lequel le temps s´incorpore subjectivement dans le voeu d´avenir.”[6]

Malabou refere a plasticidade como o regime segundo o qual progredimos no imprevisível, no acidente. Mais do que nómada, é um regime de reconstrução do sujeito e da forma. No trabalho que estamos a desenvolver interessa-nos essa constante fragilidade da forma imposta por esse movimento bi-direccional de fixação e de explosão. Neste contexto, o performer faz com que o seu rapport à l´avenir se constitua movimento, se constitua fisicalidade.

Resumo 6: inverter o processo, criar o indizível, o que é que falar quer dizer?


[1] Este artigo foi escrito em conjunto e sintetiza as ideias desenvolvidas durante a última residência realizada no Espaço do Tempo, Convento da Saudação em Montemor-o-Novo. Faz também parte de um trabalho a apresentar no seminário de doutoramento orientado pelo Professor José Bragança de Miranda na Universidade Nova de Lisboa.  O resultado final é composto pelos resumos diários, por reflexões teóricas e por uma sequência de imagens. Trata-se de um objecto que se pretende dinâmico e cuja construção é paralela à da peça “Em  resumo”.

[2] Catherine Malabou, Plasticité, Editions Leo Scheer, 2000, p.9.

[3] Jean Baudrillard, Simulação e Simulacro, Relógio D´Água, 1991, 29.

[4] Como exemplo, destacamos o facto de a atenção do sujeito ser portadora de valor económico, logo sujeita à sua gestão espectacular. A economia da atenção potencia uma coreografia dos sentidos, como forma de rentabilizar a atenção prestada por potenciais clientes. Hipermercados, ruas e outros locais públicos, centros comerciais… passam a ser os novos palcos onde se encena a luta pela atenção compradora. No futuro podemos assistir à comercialização de espaços de atenção nula onde o sujeito poderá ter a garantia de não ser confrontado com uma meta-arquitectura das percepções.

[5] Bragança de Miranda, Breve reflexão sobre o especular, in http://www.pwp.netcabo.pt/jbmiranda/jbm_espelhos.htm, 2003.

[6] Catherine Malabou, Plasticité, Editions Leo Scheer, 2000, p.10.

Foto: Em resumo, 2004©Susana Neves