Cuidados Intensivos – Uma conversa

(Texto publicado no livro Cuidados Intensivos – programa de encontros , performance e exposições 2013. Joclécio Azevedo e Cristina Grande)

Eu refiro-me em todo o projecto às artes vivas, mesmo existindo uma forte presença material e visual. Tudo deriva do pensamento em torno das artes performativas.

Conversa com Joclécio Azevedo orientada por Cristina Grande

Esta conversa resulta de um conjunto de encontros informais, realizados em casa do coreógrafo e performer* brasileiro Joclécio Azevedo, sediado no Porto há 24 anos.

Não se dissociando do contexto que escolheu para viver e trabalhar e reconhecendo a ausência de dinâmicas estimulantes para a reflexão sobre a criação performativa, Joclécio decidiu conceber o programa “Cuidados Intensivos”, a convite da Associação Circular e no âmbito do seu projecto Artista Residente.

O artista centrou-se no que entendeu ser essencial e prioritário, programando uma estrutura diversificada de encontros, performances e exposições, onde os artistas pudessem gerar diálogos assentes na divulgação dos seus processos de trabalho, projectos e pensamentos.

Admito que hoje conheço melhor este artista e a importância simbólica e interventiva do programa “Cuidados Intensivos”. Reconheço ainda que o encontro ocupa um lugar vital na existência humana. É por isso imperativo dar-lhe protagonismo nos nossos espaços, programas e vidas.

Qual foi a motivação para o projecto “Cuidados Intensivos”?

Fui convidado pela Circular Associação Cultural para desenvolver um programa de iniciativas ao longo de dois anos como Artista Residente. Pensei o que deveria apresentar considerando os meus mais de 15 anos de trabalho e de experiência como criador. A duração da residência deu-me a possibilidade de conceber – paralelamente a duas novas criações coreográficas – um programa que incluísse diferentes momentos e reflectisse sobre a relação entre os artistas, as instituições e os públicos. Propus algo menos convencional e expectável. Esta oportunidade permitiu-me criar um projecto artístico duracional, de abertura a novas oportunidades de colaboração, valorizando uma visão da criação artística como algo indissociável de uma dimensão social e colectiva.

Intitulaste-o “Cuidados Intensivos”.

O título “Cuidados Intensivos” traduz o momento em que nos encontramos a viver, um ano terrível, o ano do agravamento dos grandes cortes estatais na cultura. Necessariamente pensei como poderia ser possível reflectir, em conjunto, o significado de “cuidar”. Cuidar de uma realidade que caracteriza a produção artística, que é frágil e que se sustenta em relações caóticas e subordinadas aos sistemas de legitimação das instituições.

Como resposta ao convite da Circular, procurei também contribuir questionando a dinâmica da sua estrutura, a forma como estabelece relações de parceria com os artistas locais. A minha cumplicidade com a Circular possibilitou-me a oportunidade de intervir através de uma programação paralela e em certos momentos simultânea ao próprio Festival Circular. Tenho um passado de trabalho que me une desde sempre aos programadores do Festival, a Dina Magalhães e o Paulo Vasques.

Interroguei-me ainda sobre qual seria a intervenção possível a nível local. O Porto é uma cidade problemática para os artistas que aqui vivem. Como poderíamos utilizar politicamente este “espaço” para reflectir e levantar questões em conjunto, tendo em conta a complexidade e desarticulação da comunidade e a sua invisibilidade artística? É evidente que me incluo neste contexto instável, em transformação e a viver esta crise que não é apenas financeira mas também uma crise de valores, de pensamento.

Uma forma de protesto que simultaneamente garanta uma visibilidade?

Quis reivindicar politicamente a nossa existência e opor-me a esta ausência de visibilidade onde também me inscrevo.

Tinha igualmente que encontrar uma forma de funcionamento inclusiva. Como estabelecer um diálogo livre e que não assentasse só na relação profissional? Queria assumir uma postura mais interventiva e realizar um projecto sustentado no desenvolvimento e partilha do nosso trabalho artístico, e no seu confronto com o público.

E o que significa “cuidar” nesta conjuntura?

Cuidar tem um lado interventivo. Pensar nas pessoas, como as incluir. Descobrir um contexto para desenvolver o meu trabalho e o dos outros artistas e para transmitir as nossas experiências para além da partilha mais imediata e frequente. Era necessário conceber espaços onde o discurso plural e divergente pudesse ter lugar. Os discursos podiam até colidir porque decorriam de estéticas e opções artísticas muito diferentes. Desejava introduzir uma forma de nos organizarmos mais orgânica e viva.

Pretendia também desencadear um diálogo intergeracional e interdisciplinar. Da minha experiência, reconheço a falta de espaços informais e contínuos de reflexão do nosso trabalho, especialmente fora do contexto das apresentações. Reconheço ainda que, muitas vezes, os espaços de apresentação informal existentes têm frequentemente implícita uma lógica de compra e venda dos projectos artísticos face aos agentes que programam e apresentam. Está ausente a vivência dos processos de criação e de reflexão sobre o que realmente se constrói.

O projecto modificou de alguma forma o funcionamento da Circular?

A concretização deste projecto assentou na minha relação com a Circular e no diálogo constante com a equipa de direcção. Parti com a vontade de o inscrever em Vila do Conde, cidade vizinha do Porto, e de questionar a estruturação da Associação neste local, de propor visões alternativas da escala de programação e métodos de trabalho. Encontrar novas estratégias, concretizar as várias camadas que o projecto pressupunha e reflectir até onde seria possível desenvolvê-lo em conjunto. E depois como materializá-lo nos espaços onde interviemos considerando as suas especificidades – a Loja (na Rua do Lidador), o Centro de Memória e a Solar – Galeria de Arte Cinemática. A Loja estava desocupada e era um espaço comercial neutro. Depois migrámos para o Centro de Memória, espaço distinto, onde está instalado o Arquivo e o Museu Municipal e se preserva um passado distante e consagrado. A escolha do átrio do Centro de Memória para as exposições “Depósito de Artefactos Performativos” e “Partituras, Notações e Anotações” foi propositada, porque é um lugar de passagem entre um passado e algo que está mais próximo de nós, que é mais recente. Já a Solar – Galeria de Arte Cinemática é uma estrutura reconhecidamente de arte contemporânea com uma programação artística continuada.

E a escolha dos artistas?

Convidei maioritariamente pessoas com quem já me tinha cruzado no meu percurso artístico profissional ou artistas que consegui ir acompanhando e tinha vontade de conhecer melhor. Não houve propriamente uma lógica de programação como decorre de um festival. Entendi a escolha como mais assente num princípio de proximidade e de cumplicidade. É preciso deixar claro que este projecto acontece no âmbito de uma residência e que o convite provém de uma vontade de partilhar uma parte do espaço artístico que me tinha sido destinado à partida. Pretendi que a minha escolha fosse transdisciplinar, diversa, que incluísse criadores com olhares distintos e pensamentos diferenciados. Coloquei-me este desafio e procurei concretizá-lo, materializando-o sob a forma de encontros: exposições, apresentações, conversas e performances. Era importante criar uma memória colectiva associada à reflexão de questões que ultrapassam a actividade individual de cada participante.

As escolhas foram assim estruturadas pela vivência do mesmo contexto dos artistas convidados e pela vontade de estabelecer relações com quem nem sempre me identifico esteticamente.

Criar um ambiente comum, povoado de vestígios de produção e fora do contexto do espectáculo, embora cada encontro pudesse incluir pequenas “demonstrações” de práticas do trabalho. Penso que esta vontade provém da minha experiência e prática na realização de encontros com artistas, da realização de entrevistas e trabalho de campo associado a diversos projectos e instituições com quem tenho colaborado. A minha postura individual foi sempre estar o mais tempo possível com os artistas. Acredito que o encontro gera a possibilidade de diálogo e que o espaço artístico promovido pelos artistas é sempre mais libertador. Por este motivo, procurei incentivar a deslocação continuada dos artistas a Vila do Conde ao longo de todo o projecto. O programa contou com a participação de Andreas Dyrdal, António Júlio, Flávio Rodrigues, Joana Providência, Miguel Pipa, Né Barros, Paulo Mendes, Pedro Augusto/Ghuna X, Rogério Nuno Costa, Susana Chiocca, Teresa Prima, Vera Santos, Victor Hugo Pontes. Praticamente todos os artistas cederam materiais para as exposições. Dos encontros inicialmente previstos apenas não foi possível concretizar a participação da Teresa Prima, tendo sido eu próprio a substituí-la no alinhamento final da programação.

E a relação com os públicos?

Foi fundamental partilhar com os públicos o que é comum entre nós mas também considerar as nossas diferenças. As sessões implicaram uma grande diversidade de públicos dada a presença de artistas distintos. Além disso, alguns dos artistas não se conheciam e esta foi uma oportunidade de se encontrarem.

Interessa-me a experiência humana, conhecer os pensamentos individuais e as suas formas de acção. Concluí ainda, através dos encontros artísticos realizados neste contexto, que os artistas se conhecem mas se relacionam muito pouco fora do âmbito da produção, da divulgação e inclusão no mercado de trabalho.

Cada momento proposto consistiu de certa forma num espaço “utópico”, efémero, mas foi o projecto que idealizei e que me propus concretizar. Pretendi revelar a materialidade associada ao universo criativo e particular de cada artista, expor diferentes campos de investigação, hábitos de preservação e de transmissão de ideias, documentos associados aos processos de trabalho.

A exposição “Biblioteca Flutuante” na Loja inaugura publicamente o projecto.

A exposição inaugural pretendia apresentar publicações que evidenciassem algumas referências teóricas que têm sustentado e alimentado o universo dos artistas convidados, relacionando-se com a sua prática. Também me interessava o lado pessoal. Surpreendi-me com a multiplicidade de disciplinas e matérias presentes: sociologia, romance, poesia, música, banda desenhada, curadoria. Interessou-me reflectir sobre a forma como estas leituras informam e condicionam a nosso percurso artístico.

Entendo que esta exposição resgata influências pessoais do grupo de artistas escolhidos. Pretendi que se criassem cumplicidades e se fomentassem reflexões. A exposição de documentação individual num mesmo contexto e espaço possibilitou-nos esta partilha.

Como foi pensada a exposição “Depósito de Artefactos Performativos” no Centro de Memória?

Neste segundo momento de exposição pretendi cruzar os vestígios de produção dos artistas convidados. Como expor estes objectos? Existirá algum interesse em torná-los visíveis? O que revelamos? Que vida existe nos objectos que guardamos? Há uma consciência artística destes objectos? Que valores têm eles no contexto da produção artística? Estas foram as questões que fundamentaram esta exposição.

Na obra “Performing the Archive”, Simone Osthoff refere-se ao arquivo “como uma ferramenta dinâmica e geradora de produção em oposição a um arquivo repositório de documentação”. Foi um campo de descoberta assim que ambicionei apresentar. Não houve apenas uma estratégia museológica. Entendi a exposição como uma espécie de “despensa” onde se convoca o presente dos objectos e materiais expostos, o seu significado e a sua indissociabilidade da representação do artista.

Seguiu-se a exposição de partituras e de registos associados ao processo de escrita coreográfica e à sua materialidade.

Sempre tive um grande interesse por processos de escrita ligados às artes performativas. Interessam-me as questões do registo, da transmissão da experiência, da tradução, da interpretação, enfim, do uso da linguagem como território de encontro. A exposição “Partituras, Notações e Anotações” incidiu sobre uma tentativa, um exercício para reunir um conjunto de exemplos que pudessem evidenciar formatos e diferentes metodologias de escrita performativa. Tentámos elaborar a partir do material recebido uma micro-cartografia, propondo algumas coordenadas de estudo. É um trabalho que me interessa continuar a desenvolver e a pesquisar. Fizemos uma proposta de identificação de materiais segundo diversas tipologias, concebendo a exposição como um possível espaço de consulta, de preservação e de divulgação. Se, por um lado, alguns dos materiais configuravam documentos de trabalho, transpostos sem dificuldade para o espaço expositivo, outros materiais apontavam para registos mais íntimos, como anotações feitas em contexto de improvisação. Outros ainda expunham fragmentos mais ligados à intimidade do intérprete que improvisa ou do criador que se debate com decisões difíceis no decurso de um processo criativo.

Como preparaste a reunião destes materiais?

O processo foi justamente o mesmo para as três primeiras exposições. Inicialmente construí em minha casa uma maqueta da exposição possível para apresentar aos artistas que pretendia convidar. Propus encontros individuais porque valorizo muito estes momentos. São encontros habitualmente ausentes da nossa prática e eu quis destacá-los. Depois foi necessário aguardar pela escolha individual dos objectos e documentos de cada artista. Recolhê-los dos ateliês, escolas ou salas de ensaio, transportá-los e pensar como os expor, em conjunto com a equipa de produção da Circular e a museóloga e historiadora Susana Medina, também minha convidada neste projecto e que me ajudou a pensar e a executar os dispositivos de apresentação de cada exposição.

Embora invisíveis, os momentos de preparação revestiram-se de uma grande importância. Nestas exposições quisemos contrariar um automatismo que sentimos instalado nas relações entre as pessoas e as instituições. É evidente que os encontros proporcionados por cada uma das exposições foram únicos e imprevisíveis.

Iniciaste naturalmente esta reflexão pelos teus arquivos…

Sim, comecei por revisitar os meus documentos e objectos que se misturam com a minha história. Revisitar os meus “arquivos” implicou restaurar memórias e uma nova forma de me relacionar com elas. Entendo que a nossa fragilidade poderá também resultar da ausência destas referências. É evidente que há também o valor afectivo que não substitui a experiência humana, mas igualmente nos ajuda a conhecer e a reflectir sobre a nossa prática artística.

A minha “despensa” é constituída por matérias que vão ficando e que não são visíveis depois dos projectos acabados. O desafio era abrir este espaço e revelar este património que é tão significativo para o que eu desenvolvo. As peças “Inacabado” e “Pedimos desculpa pelo incómodo, a (r)evolução segue dentro de momentos”, apresentadas em Vila do Conde, reflectem igualmente elementos desta presença “inacabada”, da vontade de analisar os meus materiais e, a partir daqui, encontrar novos processos e possibilidades de trabalho.

Podemos designá-lo como um património esquecido e ausente?

Património é uma palavra complexa, tem a ver com algo que se deixa ou que se recebe, individual ou colectivo, material ou imaterial. Procurei concentrar-me no legado que conseguimos reunir e perceber como o activar, difundir, valorizar e dar-lhe continuidade. Trabalhar com estes vestígios, documentação pessoal, escrita coreográfica, testemunhos, esta espécie de arqueologia poética permite-me reflectir sobre o que resta, a quem pertence e como se transmite.

Interessa-me pensar como cada um de nós contribui de alguma forma para este legado comum que é o nosso próprio campo de trabalho, um campo aberto, que não é propriedade de ninguém e que pode desaparecer se não for permanentemente cultivado.

E assumes a curadoria das exposições?

Não existiu exactamente uma curadoria das três primeiras exposições no período de Março a Julho. A minha intervenção concretizou-se na coordenação de um programa de recolha e de distribuição de diferentes matérias, livros, objectos e partituras em espaços onde conviviam datas, ideias, vestígios. Pretendi iluminar partes da prática artística que não são valorizadas. Reinventar os arquivos individuais e revelar o valor deste material foi determinante. Tenho consciência de que reuni um arquivo disperso. Tentei desafiar o seu lado regulador e procurei encontrar uma nova utilidade para estes objectos. A proposta residiu em como reactualizar os nossos arquivos, o que devemos ou conseguimos abandonar, ou o que podemos transformar e incluir em futuras criações artísticas.

Guillermo Gomes Peña intitula àquilo que os artistas vão guardando da sua actividade “arquivos disfuncionais”. E acrescenta “se as universidades de arte e departamentos de estudos de performance fizessem o esforço de salvar estes arquivos em perigo das nossas mãos desastradas, uma importante história estaria salva”.

É evidente que não se trata de matérias novas mas de objectos do universo pessoal e intelectual que foram reunidos numa exposição e que implicaram uma reflexão conjunta. Pretendi que os revíssemos, reconhecêssemos a sua importância e pensássemos que o seu valor é inesgotável porque nos instiga a continuar a trabalhar.

E a Exposição “Cuidados Intensivos – Tempo e Fricção” na Solar – Galeria de Arte Cinemática?

Esta exposição consistiu no último momento do projecto e integrou a 9ª edição do Festival Circular. Propus que a sua inauguração coincidisse com a abertura no Festival e que permanecesse ao longo de 2 semanas. Os fundamentos que presidiram à sua concepção surgiram na primeira parte do projecto e prolongaram-se no tempo. Pensei num modo de exposição que fosse activado performativamente e pudesse contemplar a apresentação de novos trabalhos, criados e expostos em dois modos: um documental, sem a presença dos artistas, e outro performativo, co-habitado pelos artistas e pelo público.

E a escolha dos artistas presentes nesta última exposição?

A selecção impôs-se por uma exigência orçamental, porque o que eu gostaria era de apresentar todos os artistas que integraram o programa desde o início. Seguiu-se a necessidade de realizar uma escolha e a selecção foi naturalmente decorrente do facto de existirem interesses comuns relativamente a processos de documentação da performance.

Houve também abertura para a integração de novas parcerias. O Paulo Mendes tem uma obra resistente e que sempre me interessou muito. A sua decisão de colaborar com a Maria Trabulo foi um desafio, dado que implicou um diálogo constante com uma artista mais jovem e de outra geração. Esta possibilidade de estimular novas parcerias artísticas sustentou o meu projecto desde o início. Foi importante ver a sua concretização em todas as obras presentes nesta última exposição. A obsessão com a escrita do Rogério Nuno Costa impressionou-me sempre pelo seu conteúdo provocador e a sua materialização contou com a colaboração da Cátia Pinheiro. A obra e performance de evocação política e poética da Susana Chiocca foi também partilhada, a seu convite, com o performer António Lago. Na minha peça convidei o Jordann Santos, um designer de moda com quem tenho colaborado noutros projectos. A parede sonora do artista Ghuna X introduziu ainda um novo elemento, visto que a sua construção só foi possível concretizar-se através do empréstimo de equipamentos de som por parte de diversas pessoas, em resultado de um open call lançado pelo Festival.

Esta teia de relações construiu-se de uma forma orgânica em resultado de cumplicidades e não só de uma lógica selectiva de programação. No fundo, o convite inicial disseminou-se a outros artistas de uma forma inclusiva, originando o alargamento do território artístico.

É assim que o meu pensamento se posiciona para gerar oportunidades e estratégias de colaboração. Colaborar significa para mim trabalhar em proximidade, sem fórmulas pré-definidas e decorrendo sempre de uma reinvenção. A minha actuação consistiu sobretudo em ir abrindo espaços e deixar que fossem sendo ocupados pelos artistas participantes. Senti-me mais um observador activo de todo um processo de aprendizagem que implicou colaborar numa quase ausência de recursos. Não me reconheço neste processo apenas como um “curador” no sentido mais convencional, mas nesta última exposição acabei por assumir este papel por se tratar de uma situação menos informal que as exposições anteriores. O desenho da exposição foi-se implantando muito lentamente e a autonomia negociada com cada participante.

Reconheço ainda que um dos aspectos mais positivos de todo o projecto em Vila do Conde teve que ver com o facto de decorrer num tempo longo e na predisposição dos artistas em colaborar para que as nossas ideias progredissem e se encontrassem alternativas, à medida que avançávamos na concepção das exposições.

“A componente performativa está sempre presente no meu projecto e a exposição na Galeria Solar reforça-a”. Queres aprofundar este comentário?

É importante referir que a Solar é uma galeria de arte cinemática onde o corpo não está normalmente presente. Pretendi nesta última exposição que a presença humana estivesse sempre exposta, mesmo que sublimada em algumas das obras apresentadas. E então de que forma as propostas artísticas documentais expostas incitariam à acção?

Eu refiro-me em todo o projecto às artes vivas, mesmo existindo uma forte presença material e visual. Tudo deriva do pensamento em torno das artes performativas.

Estiveste muito tempo a residir em Vila do Conde. De que forma foi importante para o projecto?

Residir tem que ver com a ideia de “demorar”, de uma relação com o tempo. Não estive propriamente a residir em Vila do Conde. Continuei a viver no Porto mas passei muito do tempo em Vila do Conde, a cruzar-me com diversos espaços de trabalho, a conhecer melhor algumas instituições, a relacionar-me com pessoas. A minha convivência com a cidade é já muito antiga e anterior a esta residência artística. Acho que o facto mais marcante foi poder aprofundar ligações com um tecido cultural que se tem expandido e estruturado nos últimos anos. E esta relação de proximidade com o Porto está ainda muito pouco explorada.

E que referências tuas estão subjacentes neste projecto?

Sempre me interessei muito pela ideia de vestígio e de como nós convivemos com o que produzimos. Aquilo que a presença humana lega vai deixando rastos. “Into Eternity”, de Michael Madsen, ou “Garbage Dreams”, de Mai Iskander, são para mim filmes de referência sobre esta reflexão. Tomo igualmente como referência a obra “Container”, de Lukas Moddysson. As nossas acções também desaparecem, mas nós deixamos impressões.

O pensamento de Nicolas Bourriaud sobre o termo “pós-produção” influenciou também a concepção das exposições que integraram o projecto. As exposições apoiaram-se na reinterpretação e re-exposição de materiais já existentes e muitas vezes ignorados. É necessário ter consciência de que usamos materiais e objectos que já circulavam em outros circuitos de produção cultural. “As noções de originalidade e mesmo de criação”, como refere Borriaud, “desvanecem-se nesta nova paisagem cultural marcada pelas figuras idênticas do DJ e do programador, que têm como tarefa seleccionar objectos culturais e de os inserir em contextos definidos”. É um processo de resgate, de apropriação num contexto determinado.

Outra referência é a obra “Evocative Objects: Things We Think With”, de Sherry Turkle, sobre o que despertam em nós os objectos que usamos e guardamos. Que relações humanas, narrativas e ideias novas nascem a partir daqui? Não se trata do objecto em si mesmo ou da forma de o consumir, mas daquilo que ele alimenta do ponto de vista emocional e intelectual para além da sua estética. Nos objectos que nos acompanham há sempre uma memória sensível da experiência do seu uso.

Considero outra referência importante a publicação “Sociedade invisível”, do filósofo Daniel Innerarity, que se refere às relações entre poder e visibilidade. Hoje temos acesso a um excesso de material digital que, na realidade, não nos torna mais próximos. O que se constata é que estamos cada vez mais solitários e daí a urgência em fomentar relações humanas mais reais, íntimas e de proximidade. Vivemos num tempo em que as formas de encontro são quase sempre mediadas, em que não há continuidade nas relações, nem longevidade. O facto de beneficiarmos de muitas informações disponíveis e de fácil acesso não significa que as entendamos profundamente. E, por este motivo, propus a realização de uma publicação. Uma espécie de mapa que assinalasse o projecto, evidentemente não estável, porque os percursos artísticos vão-se modificando ao longo do tempo.

E o que representa para ti a publicação?

Era obrigatório existir este momento de edição e incluí-lo no projecto. Publicamos um resumo de experiências que vão poder ser partilhadas e que eu espero que revelem aspectos menos discutidos de algumas práticas artísticas e menos conhecidos dos públicos. Para além disso, a maior parte dos testemunhos que existem e que se encontram editados são habitualmente relegados para os artistas mais consagrados e praticamente ausentes junto das gerações mais jovens.

Não pretendi juntar apenas o resultado das nossas reflexões teóricas sobre as práticas artísticas, mas antes reunir um conjunto de experiências que funcionem como pistas de trabalho e contribuam para ocupar um espaço ausente. Queria que esta edição reflectisse sobre o contexto actual onde nos inserimos. Há poucas publicações sobre prática da performance em Portugal, sendo que a maioria provém do meio universitário e científico. Acho importante que surjam documentos nos mais diversos formatos que explorem novos campos de investigação.

Um “livro de trabalho”?

Sim, entendo esta publicação não só como depósito de testemunhos mas como uma possível interface, um livro de trabalho que fomente a reflexão sobre aspectos menos visíveis do campo performativo. Tem um lado desorganizado porque é um espaço de afirmação individual, com notas e fragmentos escolhidos pelos artistas convidados. Espero ainda que a publicação forneça pistas. Entendo-a numa perspectiva de transmissão porque penso que temos essa responsabilidade.

Sobre o princípio da responsabilidade, revejo-me sempre no pensamento do Daniel Innerarity e na defesa de que “o futuro pode e deve ser um âmbito de protecção e cuidado pelo qual nos responsabilizemos, um verdadeiro campo de ensaios para o exercício da responsabilidade”.

É preciso sublinhar que temos um passado e combater a ideia de que o presente é suficiente para valorizar a nossa actividade.

E que continuidade prevês para o projecto?

Retomo Innerarity e a concepção de que “a política é obrigada a conceber-se como um governo dos tempos, como ‘cronopolítica’; já não maneja apenas espaços, recursos naturais e trabalho, pois tem também de gerir tempo, influir nas condições temporais da existência humana, equilibrar na medida do possível as velocidades dos diversos sistemas sociais e configurar um ritmo democrático”.

O desenvolvimento do projecto permitiu-me tomar consciência deste pensamento ao longo do seu desenvolvimento. O tempo prolongado da sua realização foi valioso. Entendo que a nossa sobrevivência passa por encontrar uma configuração prospectiva que permita aos artistas estarem juntos e resistirem. Confesso que gostaria de continuar a aprofundar a relevância destas questões com a Circular num futuro próximo.


* Ao longo desta entrevista, o uso dos termos “performer” e “performance” é consensual e entendido por ambos tal como definido por RoseLee Goldberg:“Ao contrário do que se verifica na tradição teatral, o performer é o artista, quase nunca uma personagem, como acontece com os actores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa nos moldes tradicionais. A performance pode também consistir numa série de gestos íntimos ou numa manifestação teatral com elementos visuais em grande escala e durar apenas alguns minutos ou várias horas; pode ser apresentada uma única vez ou repetida diversas vezes e seguir ou não um guião; tanto pode ser fruto de improvisação espontânea como de longos meses de ensaios.” In RoseLee Goldberg, A Arte da Performance: do futurismo ao presente, Lisboa: Orfeu Negro, 2007, p. 9 (ed. orig. 1979).

Foto: Cuidados Intensivos, 2013©Margarida Ribeiro