Intermitências, Joclécio Azevedo, 2016 02©José Caldeira

manchas monocromáticas para tempos difíceis

(Texto de Rita Castro Neves, publicado no livro “Intermitências”, em 2016)

Num grande palco o espetáculo Intermitências inicia-se com escuridão profunda, como se do fim se tratasse, e as luzes finalmente se tivessem apagado sobre a ação.

Só que nesta noite negra há ainda corpos que trabalham afincadamente, sentimo-los agir sob um som ambiente, intermitente, de um vento ecoante. São os trabalhadores que não podem desperdiçar tempo, que, sem parança, enquanto os outros dormem, mantêm a grande máquina a funcionar, ou o fogo sempre a arder.

Esta peça é a última das Intermitências que nos foram sendo mostradas ao longo de um ano em diversos espaços do Teatro Rivoli, o quinto momento público (isto é, para lá de todos os momentos que o grupo teve em privado, na residência, ou melhor, na démarche).

Já vimos como um início por vezes traz com ele a memória do fim.

Derek Jarman escreve Chroma quando por força da doença vai perdendo a visão, nessa que vai ser então a sua última obra, diz-nos que:

“O negro é ilimitado, a imaginação corre no escuro. Sonhos vívidos encarreirados pela noite fora. Os morcegos de Goya com caras de duende gargalhando no escuro.

No negro braseiro de carvão vive o espírito de contar histórias. Cintilação azul e chamas encarnadas. Era à volta da fogueira, à noite, que homens e mulheres contavam as suas histórias, na noite negra.” (p. 179)

Há medida que o que se está a passar no palco se vai tornando mais visível, para lá dos cinco corpos, apercebemo-nos no palco despojado, de um pequeno dispositivo doméstico – uma ventoinha – que funciona em contínuo; junto a ela dois microfones captam o seu som, que repercutido na sala ecoa como vento forte, como se estivéssemos todos num barco. Todos no mesmo barco.

Essa sensação de estarmos em local contido, é sublinhada por aquilo que só pode ser uma amplificação sonora dos movimentos que são feitos pelos intérpretes. Há microfones espalhados ainda que invisíveis, e sentimo-nos no interior de uma caixa de ressonância. Um palco faz eco de outros barcos.

Duas mulheres e três homens desenrolam novelos, no que se tornou um emaranhado gigante, muito maior que eles próprios, os intérpretes esticam a corda, e a teia transforma-se numa rede de pesca, de formas variáveis, por vezes é de novo, um barco, outra as cestas do peixe na cabeça das vendedeiras. A esta capacidade de Joclécio Azevedo de criar imagens, associam-se os movimentos de gestualidade funcional e muito antiga, os gestos dos pescadores, das varinas e das Ariadnes, que inscrevem o tempo do agora no tempo do antes, como um sempre.

Abandonado o novelo, desagregando-se o grupo, cansado o corpo da tesura das difíceis ações levadas a cabo, o gesto desce ao chão e cada corpo tenta encontrar o seu léxico próprio, balbucia, repete a palavra, a frase, descontinuadamente. E ainda assim, o corpo articula-se. Do chão para a posição de pé: é que uma pessoa também se ergue, e no final, o grupo todo. Por orgânicos movimentos, desde o abandono do movimento culturalmente apreendido da cabeça que abanando diz sim, cabisbaixa, à aprendizagem da força eletrizante do grupo, não é contínuo o momento, é intercortado.

A máquina de fumo, comum elemento do espetáculo contemporâneo, vai preenchendo o espaço dessa matéria volátil que reconhecemos. Negro, branco, e depois, laranja.

São lentas as passagens da cor para longas noites de trabalho. Mancha-se o espaço da cor filtrada. São mono-tonias.

Se contrastares as cores umas com as outras, elas cantam. Não como um coro, mas como solistas.

Qual é a cor da música das esferas senão o eco do Bing Bang no espectro, repetindo-se circularmente?

Hoje enquanto escrevo este texto, o telescópio Hubble está a fotografar os limites do universo. O princípio do tempo. Mundos cuja luz demorou mais tempo para lá chegar do que a própria idade da Terra. Espreitando buracos negros onde o tempo, o espaço e a dimensão deixam de existir.

Será que a minha voz ecoará até ao fim dos tempos? Viajará para sempre pelo vazio? (p. 177-8)

A simplicidade do dispositivo ventoinha, para criação sonora, e a demonstração do seu processo constitutivo – a ventoinha e os microfones ali bem visíveis, já faziam antever um denominador comum desta peça. Intermitências ancora-se em materiais simples, arquetípicos: a corda, a máscara, o fumo, o corpo, preto, branco e laranja, que produzem movimento, nuvens, ritual, e dança.

É assim nas palavras do coreógrafo, uma coreo-cenografia sonora, uma escrita simultânea e interdependente.

Não há acessórios, o acessório é essencial. Tira-se partido de todos – os poucos – elementos introduzidos. A exploração é auto-demonstrada, em partilha com o público, um trabalho a pensar-se a partir da arché.

O despojamento participa aqui também de uma atmosfera pesada, de fumo, da dureza das vidas, do agora. Os figurinos são de cor desbotada, do branco para um azul escuro quase negro e vice-versa, espaço de transição equívoca, de tingimento a esvair-se. Também aqui temos manchas.

Espaço negro vazio de novo, os homens e as mulheres voltam, e pela ação de máscaras-esculturas e casacões de mangas largas são aves, bruxas, veados, soldadores, gueixas mal definidas, sombras de si-mesmos, dançam juntos, entre o baile de máscaras e a dança macabra, as sombras intensificam-se, as figuras vão desaparecendo, de novo, no negro.

Mas depois de uma imagem de forte intensidade, quando se fecham os olhos continua-se a ver.

Derek Jarman, Chroma, Lisboa, 2015, ed. não (edições), 1º ed. inglesa de 1994.

Foto: Intemitências, 2016©José Caldeira