Coreografias Suplentes

Coreografias Suplentes é a denominação de uma série de peças coreográficas de um minuto que são ativadas no interior dos participantes (o público). Esta versão foi realizada no Campus Paulo Cunha e Silva, como conclusão da residência artística no âmbito do projeto Reclamar Tempo, promovido pelo Rivoli – Teatro Municipal do Porto. O processo inicia-se com a entrega da chave de um cacifo. A entrega é fotografada como momento de passagem da responsabilidade para a ativação da peça. Cada participante dirige-se a uma zona onde a sua chave dará acesso a uma das 18 partituras guardadas. É-lhes pedido que memorizem a partitura, composta apenas por uma frase. As frases sugerem possibilidades para a coreografia, sem identificar aspetos estéticos ou técnicos do movimento, nem aspetos físicos, género ou número dos virtuais intérpretes. A construção gramatical é semelhante para todas as partituras, mas cada participante terá contato apenas com a partitura a executar. Algumas partituras referem a possibilidade da presença de corpos não humanos ou de entidades imateriais, fazem alusões ao imaginário cinematográfico ou sugerem ações impossíveis.

Para a ativação da peça é indicado um lugar preciso: a baliza do campo de jogos, próximo ao lugar onde estão depositadas as partituras. As instruções indicam que o participante deverá dirigir-se à baliza, fechar os olhos e executar mentalmente a coreografia durante um minuto.

Do ponto de vista exterior todas as execuções utilizam a mesma configuração: uma pessoa de olhos fechados, na maior parte das vezes de pé, enquadrada pela presença da baliza. Esta imagem repete-se ao longo do dia, à medida em que os participantes se dirigem ao campo de jogos para ativar a coreografia. Do lado de fora, a imagem das pessoas que executam a partitura sugere uma sucessão de corpos que assumem a postura de um guarda-redes de olhos fechados, num campo de jogos vazio. Esta imagem do processo de execução dialoga com as peças invisíveis que acontecem apenas no interior de cada executante. Ao participar neste processo cada participante torna-se protagonista de uma peça única e exclusiva, da qual é simultaneamente a única testemunha.

Este processo cria diferentes interações entre o artista, a escrita e o público. Ao aceitar a chave o publico torna-se participante do trabalho e público da sua própria execução da partitura. O trabalho existe apenas na mente do executante, ao artista cabe operacionalizar um dispositivo e fornecer as condições para que o trabalho aconteça. Nem o artista, nem o público eventual que possa testemunhar a ativação da coreografia no campo de jogos terão acesso ao resultado do trabalho. No processo são documentados dois momentos: a entrega da chave, que dá acesso ao processo (partitura, memorização, deslocação, ativação) e o momento em que, durante um minuto, alguém ativa numa baliza uma performance invisível.