Disposições transitórias – 2019

Trabalho criado para o Ballet Contemporâneo do Norte, integrado no programa €urotra$h, com curadoria de Rogério Nuno Costa

Este trabalho é uma espécie de ensaio de desgaste, um teste de resistência e de flexibilidade mental para os intérpretes, assente numa estrutura de ações repetitivas que configuram uma paisagem saturada de gestos. A repetição obsessiva das ações conduz a diferentes modos de produção e de percepção do trabalho coreográfico, desenhado a partir de uma condição transitória, de algo que não pretende ser fixado em definitivo como objecto. A capacidade de transfiguração e a adaptabilidade a ações coreográficas que não se fixam são alimentadas por dinâmicas de transição entre materiais e estados interiores. Os intérpretes executam todos a mesma partitura individual, de forma quase simultânea, às vezes tentando encontrar um compromisso coletivo, às vezes criando zonas de isolamento e alienação. Os corpos aparecem aqui como combustível para máquinas de filtragem da atenção ou como peça de engrenagens coreográficas que desencadeiam possíveis configurações para o papel do fazer, do produzir, no domínio do irracional. Cada gesto é ponto de partida ou ponto de chegada de uma viagem inesperada, dentro de um espaço comum, numa zona de circulação de corpos que apalpam progressivamente o espaço encontrado, transfigurando ações que são reagrupadas em paisagens contraditórias. Imaginemos que à desordem deste território inventado correspondam também desordens do sistema nervoso. As ações acumulam-se em combinações aleatórias entre a histeria e o entusiasmo exagerado. A peça foi construída a partir de um processo de acumulação de imagens e de referências, interligando diferentes temporalidades. Este projeto configura-se também a partir de uma impressão provocada pela visualização de uma cena do filme “A page of madness”, de Teinosuke Kinugasa, de 1926. Uma bailarina dança freneticamente dentro de uma cela numa instituição para doentes do foro psiquiátrico. O filme foi influenciado pelo surrealismo europeu, como é visível na utilização da edição e na combinação entre realidade, delírio, inconsciente e ficção. Em diálogo com este imaginário onde o distúrbio ou transtorno mental afeta os sentidos e o movimento, ensaiamos uma transposição, realizamos um exercício de mobilização de atmosferas, reinscrevendo esta cena em um novo modo de existência. Neste trabalho os gestos escondem-se dentro de outros gestos, procuram novas traduções e possibilidades que os transfigurem. Os intérpretes habitam o corpo como laboratório de experimentação mecânica e arriscam-se a perder o sentido.

Coreografia: Joclécio Azevedo Interpretação: Carminda Soares, Maria Soares, Melissa Sousa e Renann Fontoura
Direção Técnica: Daniel Oliveira
Fotografia: Miguel Refresco
Design & Artwork: Jani Nummela
Curadoria & Documentação: Rogério Nuno Costa
Figurinos: Jordan Santos
Produção: Ballet Contemporâneo do Norte
Apoios: Junta de Freguesia de São João de Ver_ Paróquia de São João de Ver_ Tuna Musical de Santa Marinha_ mala voadora
Companhia financiada por: Governo de Portugal / Direção-Geral das Artes
Apoio: Câmara Municipal de Santa Maria da Feira