Documentário – 2018

Documentário, Joclécio Azevedo, 2018. ©Susana Neves

Escrever, descrever e reescrever infinitas versões de cada acontecimento.

“Documentário” é uma peça coreográfica, para seis intérpretes, em torno de uma partitura caótica que reflete a tensão entre a necessidade e a impossibilidade de perceber o tempo presente. O mundo que pensamos conhecer desarticula-se em novas configurações do social, em novas estratégias de dominação política e económica. Pedaços do mundo manifestam-se no tráfico incontrolável de imagens que nos perseguem até mesmo nos sonhos. A aparente proximidade sugerida pelo acesso a novas tecnologias e formas de interação no mundo digital esconde a nossa incapacidade de lidar com o outro, objeto fetiche de uma fantasia permanente e de um medo difuso. Oscilamos entre a crença infundada e a desconfiança como princípio. As mesmas imagens repetem-se em diferentes suportes com diferentes protagonistas, num combate permanente pela atenção. A exclusão do outro manifesta-se pela normalização e pela colonização do imaginário coletivo, pela disseminação do equívoco, do engano e do preconceito. Neste contexto a escrita torna-se combate, torna-se um incómodo e um exercício de poder.

No interior de um cenário que se assemelha a uma espécie de estúdio de televisão, pairam fragmentos de arquivos dispersos de imagem e som, registos que se atropelam e interrogam mutuamente. Nesta paisagem, simula-se a produção de um filme onde seis intérpretes gravitam em torno de uma partitura caótica, que mistura seres imaginários e instruções gravadas, para uma peça que nunca se completa, permanecendo como uma fantasmagoria, como uma dramaturgia da falha e da repetição infinita. Numa metamorfose contínua, os corpos dos intérpretes atravessam-se insistentemente no caminho uns dos outros, são corpos em trânsito, permeáveis e desorientados. Durante o processo de criação desta peça, o universo mais reconhecível do documentário enquanto registo foi, gradualmente, desaparecendo, adquirindo um caráter residual e dando lugar à experimentação de metamorfoses da memória, que é submetida à constante flutuação entre realidade e encenação.

Ficha artística e técnica

Direcção artística e coreografia: Joclécio Azevedo | Colaboração/cenografia: Paulo Mendes | Colaboração/música: Pedro Tudela | Intérpretes: Ana Isabel Castro, Ana Moreira, Dori Nigro, Joclécio Azevedo, Pedro Prazeres, Rocio Dominguez e/ou Ricardo Pereira | Convidados para os workshops: Daniel Ribas, Melissa Rodrigues, Olívia da Silva e Rita Castro Neves | Fotografia: Susana Neves | Figurinos: Jordann Santos | Desenho e operação de luz: Miguel Carneiro | Registo e edição vídeo: Sofia Arriscado | Produção executiva: Sofia Reis e Sofia Ribeiro Silva | Gestão Financeira: Fadas e Elfos Associação Cultural | Parcerias: Fórum Dança, Circular Associação Cultural, Centro de Criação do Candoso/Centro Cultural  Vila Flor, Centro de Creación del cuerpo y el movimento El Graner, Festival DDD – Dias da Dança, Companhia Instável |

Co-produção: Teatro Municipal do Porto Rivoli – Campo Alegre

Agradecimentos: Participantes no Workshop Rivoli (Ana Maria Mula, Ana Moreira, Ana Murmur, Ana Renata Polónia, Ana Temudo, Francesca Vita, Helena Guerreiro, Inês Oliveira, Joana Falcão, Mafalda Banquart, Mafalda Salgueiro, Manuela Matos Monteiro, Melissa Rodrigues, Patrícia Black, Rita Morais de Carvalho, Rosa Quiroga, Sara Miro e Schmu), participantes Residência Graner Barcelona (Beatriz Molinero, Maria Romero, Mara Echavarría e Rodrigo Paris).

Projecto financiado por: República Portuguesa – Cultura, DGArtes – Direcção-Geral das artes

Festival DDD

Fotos: ©Susana Neves