Intermitências, Joclécio Azevedo, 2016 ©José Caldeira

Intermitências- 2016

Projecto desenvolvido durante uma série de residências artísticas intermitentes realizadas entre 2015 e 2016 em espaços do Teatro Municipal do Porto – Rivoli. O processo de trabalho foi constituído por momentos descontínuos, num jogo de interrogações à volta da produção desta peça coreográfica, provocando vários tipos de configurações entre os seus intervenientes e explorando a coreografia enquanto tecnologia de produção.

Concepção e coreografia: Joclécio Azevedo | Colaboração: Jérémy Pajeanc | Música: Kubik (aka Victor Afonso) | Interpretação: André Mendes, Bruno Senune, Camila Neves, Joana Castro, Joclécio Azevedo | Figurinos: Jordann Santos | Desenho de luz e operação: Miguel Carneiro | Apoio à residência: Companhia Instável | Produção executiva e difusão: Circular Associação Cultural

Co-produção: Teatro Municipal do Porto – Rivoli e Circular Associação Cultural

INTERMITÊNCIAS #0

Performance | Joclécio Azevedo e Jérémy Pajeanc

25 de Março | 2015 | Sala de ensaios (acção incluída na visita guiada de apresentação da programação do Rivoli Teatro Municipal do Porto)

Elaboração de um mapa  intuitivo, desenhado a partir de desdobramentos espontâneos de palavras e de gestos associados ao acto de escrever e à ideia de intermitência. Dois corpos e um discurso que ganha também corpo através do diálogo gráfico e da  sobreposição de fragmentos de escrita sobre o espelho da sala de ensaios. O mapa progressivamente perde legibilidade à medida em que se expande, começando a apagar-se a si próprio pela acumulação de informação e pela propagação de palavras, datas e ligações. Um discurso auto-destrutivo que se desfigura  por dentro num processo contínuo de acumulação.

INTERMITÊNCIAS #1

Conferência performativa  | Joclécio Azevedo e Jérémy Pajeanc

25 de Maio | 2015 | 21h30, Teatro Municipal Rivoli – Auditório Isabel Alves Costa

Esta performance cria um diálogo entre a presença dos corpos ao vivo e a presença das suas vozes duplicadas por gravações realizadas durante a preparação da apresentação. O trabalho enquanto tema afirma-se aqui como uma das linhas de acção fundamentais do projecto “Intermitências”. Aproximamo-nos do imaginário da fábrica, da cidade industrial, numa evocação do  imaginário das fábricas nos finais do século XIX, início do século XX; lugares de propagação de novos modos de produção, que por sua vez serviriam de motor à alterações profundas no tecido social. As conversas em estúdio serviram de base à construção de um discurso documentado e utilizado como parte da banda sonora da acção, dando relevo à ideia de despersonalização e especialização do corpo submetido à rotina do trabalho, à produção em série, à adaptação permanente a novas tecnologias de produção. A performance integra encadeamentos de procedimentos: conversas que produzem imagens, imagens que por sua vez provocam novos processos de transformação de matérias. Experimentam-se processos de repetição, de desmontagem e de transformação de estruturas em vidro, montadas de forma precária. O vidro é utilizado como material e como filtro visual, uma substância em estado transitório, transparente, que permite a visibilidade entre diferentes espaços, entre o dentro e o fora. O som intermitente de uma sirene de fábrica, integrado na banda sonora, reproduz uma espécie de chamada ao trabalho, de convite à transposição do espaço que divide a produção industrial e a vida privada.

INTERMITÊNCIAS #2

Concerto/ performance | Kubik (aka Victor Afonso), Andre Mendes, Joana Castro e Joclécio Azevedo

30 de Setembro | 2015 | 21h30, Teatro Municipal Rivoli – Sub-palco

Propõe-se neste encontro um diálogo entre processos de escrita musical e coreográfica. Como pano de fundo dispomos do tempo partilhado nas sessões de trabalho, onde afloram-se e retalham-se referências, alinham-se possibilidades de aproximação ou de afastamento entre som e acção. Enfoque sobre o trabalho de montagem, tal como entendido na fábrica ou no cinema. Nesta apresentação a performance segue duas linhas de tempo paralelas, funcionando ora de forma intermitente, ora em simultaneidade: de um lado um concerto musical ao vivo, uma celebração do excesso sonoro num patchwork de ruídos industriais e colagens de temas musicais cujas letras incluem a palavra “dinheiro”, em diferentes idiomas; do outro uma construção caótica com fragmentos de madeira, espalhados pelo espaço após o desmoronamento de uma espécie de muro no início da performance. O espaço progressivamente transforma-se em maquete, em protótipo de uma micro cidade que por sua vez absorve inscrições de palavras que se acumulam num discurso visual, sonoro e coreográfico, permitindo a reutilização e transformação dos materiais em cena e das suas relações com os corpos dos intérpretes.

INTERMITÊNCIAS #3

Ensaio aberto | André Mendes, Bruno Senune, Camila Neves, Joana Castro e Joclécio Azevedo

25 de Novembro | 2015 | 21h30 |, Teatro Municipal Rivoli – Sala de Ensaios

Neste ensaio aberto debruçamo-nos sobre um tempo indefinido, um tempo de vagar, um tempo de intermitência entre estados físicos, entre a actividade lúdica e a actividade produtiva. No chão acumulam-se bolas de ping pong resultantes do jogo entre os intérpretes. Um ensaio liga-se comummente à ideia de repetição, de algo que se faz para ser refeito, reproduzido, aperfeiçoado. Mas como aprendemos com a repetição? Como nos libertamos do que aprendemos? Como desaprender? Como base para a escrita coreográfica utilizam-se  processos de numeração, de contagem, de seriação de tarefas. Organizamos uma constelação de micro partituras, unidas por uma partitura mestra: um desdobrável constantemente reescrito e alterado durante os ensaios. A partitura, constantemente adaptada, dispõe uma constelação de acções que exigem o esforço físico. A coreografia é assumida como “ensaio” infinito, como exercício físico, acumulação, aceleração, tentativa de construção de um corpo colectivo. Uma máquina de fumo cria uma nuvem intermitente. A ideia de anacronismo é reforçada pela presença de uma banda sonora (proveniente do filme de ficção científica Forbidden Planet) que cria um tempo paralelo.

INTERMITÊNCIAS

Estreia | André Mendes, Bruno Senune, Camila Neves, Joana Castro e Joclécio Azevedo

13 de Fevereiro | 2015 | 19h00, Teatro Municipal Rivoli – Grande Auditório Manoel de Oliveira

O último momento de apresentação foi pensado como um novo ponto de partida para o projecto, como um momento divergente dos processos de produção anteriores. Aquilo que assumimos como “espectáculo final” seria o momento de voltar a mergulhar no labirinto e não propriamente o momento de recuperar o fio à meada. Começa-se outra vez, desta vez num espaço com a escala bastante maior que os dos momentos anteriores. Começa-se com o desenrolar de fios que se cruzam em rede, como que a experimentar simultaneamente processos para medir o tempo, entrecruzamentos de percursos em cena e diversas configurações da ideia de corpo colectivo. Os intérpretes embrenham-se numa cortina de fumo. Uma ventoinha em cena, com dois pequenos tripés com microfones, reproduz o som intermitente do vento, numa espécie de respiração, de evocação de um relógio mecânico, de uma máquina sempre presente. A coreografia desenvolve-se como uma sucessão de cenas entrecortadas, com encadeamentos maquinais e entrelaçamento de corpos. Em “Intermitências” o uso do tempo é entendido como elemento transversal da nossa existência: o tempo como elemento de disjunção e de sobreposição, o tempo da fricção entre tempos contrastantes. A coreografia incide sobre a repetição de acções, sobre a quantificação e distribuição dos movimentos que produzimos, expostos ao olhar do público enquanto trabalho físico, enquanto processo contínuo de produção e dispersão de energia. O corpo assume-se, neste contexto, como uma espécie de palimpsesto, como superfície de inscrição cujas transformações vão sendo evidenciadas no desenrolar da estrutura coreográfica. Nesta obsessão de tornar habitável e visível o processo de trabalho, ensaiamos formas de apropriação dos espaços comuns, ocupamos o tempo em que existimos em conjunto. O tempo actual seria então o tempo em que cada coisa acontece, mas seria também o tempo dos instantes que nos escapam. Na impossibilidade de ver ou de dominar o tempo, concentramo-nos em perceber e em sublinhar os seus efeitos.

Uma nova camada de roupa, de cor preta,  provoca a desaparição da imagem dos corpos dos intérpretes, substituída por um conjunto compacto de figuras sombra. Figuras em negro, construídas a partir de colagens de referências visuais que remetem para o imaginário do cinema de horror e ficção científica dos anos 50 e 60 do século XX. As figuras, que desaparecem lentamente à distância, ensaiam uma dança apenas esboçada, qualquer coisa entre o baile de máscaras, a dança macabra ou um ritual de passagem. Encontram-se deslocadas do tempo e da história. Pertencem a um tempo que ainda não foi nomeado, são apenas vestígios de uma alucinação colectiva.

Fotos: ©José Caldeira/TMP