MOdos de usar

Modos de Usar surgiu de uma encomenda no quadro do projeto Artista Residente, da Circular Associação Cultural, sediada em Vila do Conde. A ideia de colaboração enquanto metodologia de pesquisa serviu de base para a construção de uma programação distribuída ao longo de cinco anos.

A colaboração na prática artística coloca-nos num estado de transição permanente entre estados de compreensão e de localização de territórios, numa constante negociação de fronteiras. O programa nasceu de conversas em processo entre artistas, que progressivamente foram dando origem a partituras colaborativas.

Objetos e ferramentas teóricas e práticas utilizadas nos processos artísticos refletem de algum modo diferentes ocupações, áreas de interesse e modos de produzir. São extensões do corpo, mas também são indicadores de relações com o mundo. Modos de Usar funcionou como um espaço de diálogo, um lugar para questionar a utilidade e a inutilidade das ferramentas de trabalho, permitindo a contaminação de práticas e a experimentação em torno de linguagens artísticas. Neste sentido cada processo escapa ao controle de qualquer uma das partes envolvidas, evoluindo ao ritmo e à medida em que os próprios participantes situam-se na estruturação de um universo comum.

Destas conversas em processo surgiram propostas de configurações de espaços de encontro e cooperação, envolvendo artistas, grupos, associações e estruturas locais ligadas ao campo das artes performativas. Os processos colaborativos deram origem a performances, workshops, encontros, concertos e apresentações informais, integrando modos de participação dirigidos a profissionais e não profissionais. Entrecruzando áreas como a dança, música e artes visuais, o projeto contou com a colaboração de Isabel Costa, Miguel Pipa, Eduarda Neves, Carlos Arteiro, Eduardo Luís Patriarca e Ana Cristina Ferreira, desdobrando-se através de atividades pedagógicas, parcerias ou colaborações informais com entidades como a Escola de Dança da Associação Juventude Unida de Mosteiró, Escola de Dança do Centro Municipal de Juventude de Vila do Conde, Oficina Zero, ESMAD ou o Conservatório de Música de Vila do Conde. As apresentações públicas tiveram lugar no Centro de Memória de Vila do Conde, Auditório e Teatro Municipal de Vila do Conde, Eixo Residências Artísticas, Atelier Miguel Pipa, Espaço Social e Cultural de Mosteiró e Centro Municipal de Juventude de Vila do Conde.

Esta publicação pretende expandir as interrogações surgidas no percurso da programação, articulando em duas partes abordagens distintas à ideia de colaboração e convocando outros criadores, projetos e experiências para alargar a discussão.

A primeira parte incide sobre a memória do projeto em Vila do Conde, sobre os seus registos e participantes. Conversas inacabadas é uma espécie de visão retrospetiva que toma por base situações reais dos processos de trabalho do projeto Modos de Usar (numa ordem não cronológica). Os fragmentos de texto são intercalados com notas, citações e apontamentos ficcionais que de alguma forma tentam preencher os lapsos de memória.  Outros são também os rios que correm ruidosamente é um texto escrito por Eduarda Neves a partir da performance/instalação Plano Inclinado, realizada em 2020 no Centro de Memória de Vila do Conde. O texto articula aspetos do imaginário do projeto Modos de Usar, ressaltando o contraste entre um corpo mercadoria e a imagem artaudiana do corpo sem órgãos, desenvolvida enquanto prática e conceito no pensamento de Deleuze e Guattari. A inoperância, o fracasso e a inutilidade integram um vocabulário de imagens convocadas pela autora, relembrando que o próprio artista é processo e que a colaboração também pode ser entendida como um modo de provocação. Carolina Lapa contribui para esta publicação com quatro entrevistas com os artistas convidados entre 2018 e 2022. As entrevistas foram realizadas com uma grande distância temporal em relação às ações do projeto, neste sentido trazem novas camadas ou novos dados do desenvolvimento de cada colaboração, incorporando no discurso os efeitos do tempo. Por fim os Registos Fotográficos e vestígios de processo foram reunidos e organizados, segundo uma lógica associativa, permitindo a sobreposição entre ações mais invisíveis de montagem, ensaio, e investigação com os momentos das apresentações públicas.

A segunda parte desta publicação é composta por textos de artistas que foram convidados posteriormente a integrarem a parte documental do projeto, escrevendo sobre os seus próprios trabalhos e sobre os modos em que utilizam a colaboração nos seus processos de pesquisa, dando visibilidade a outras dimensões da prática e da experiência colaborativa. Andresa Soares, Nuno Lucas, Nuno M. Cardoso e Patrícia Portela expõem nas suas contribuições diferentes abordagens ao tema, lançando considerações e provocações que poderão adensar e problematizar este campo de pesquisa. Conversas entre a galinha e o ovo, de Andresa Soares, reflete sobre a não especialização no trabalho colaborativo, sobre o espaço dedicado ao posicionamento de cada interveniente, definindo a colaboração como uma extravagante forma de conversa. O texto enfatiza a necessidade de questionar os sistemas vigentes na produção das artes performativas, nomeadamente através do trabalho coletivo, cooperativo e associativo, no exercício e na procura de outras formas de existir em conjunto. E no final somos dois, de Nuno Lucas, apresenta diferentes dimensões e escalas do trabalho colaborativo, integrando-as no seu percurso enquanto artista e questionando o papel da intimidade no processo. O texto aborda a questão da liberdade, do equilíbrio entre indivíduo e grupo e enfatiza o papel das pequenas e grandes escolhas na materialização de uma relação. Diálogo, de Nuno M. Cardoso, identifica o teatro enquanto arte performativa e colaborativa, refletindo sobre os papéis dos intervenientes no processo criativo e expondo ferramentas, dispositivos e processos de decisão na sua prática artística. “Filhos de Abel”, caminhar como experiência artística ecológica (e colaborativa), de Patrícia Portela, questiona a independência do ato criativo, defendendo que a prática artística é sempre de alguma forma colaborativa. O texto descreve a construção de uma peça com os seus alunos durante um dos períodos de confinamento em 2021, dando visibilidade ao processo criativo na procura de ferramentas para ultrapassar ansiedades e incertezas do período pandémico e à necessidade de construir novas geografias e possibilidades de encontro.

Como em qualquer projeto de longa duração a perceção dos eventos pode ser alterada pelo tempo ou pelas formas de descrição escolhidas para representá-lo. Longe de procurar uma versão única de um projeto que envolveu uma teia de interações distribuídas no tempo e no espaço, interessa-nos permitir que a memória do projeto continue em elaboração, em colaboração permanente. Os materiais aqui recolhidos oferecem possibilidades de leitura e de acesso ao imaginário do projeto. Não há nenhum mapa ou explicação simples, apenas caminhos cruzados que apresentam a colaboração como uma prática transversal e necessária.

Modos de Usar – PDF – Português

Modos de Usar – PDF – Português (baixa resolução)

Foto: Margarida Ribeiro